#2410: trois amies; you've got a friend; langue étrangère; hors du temps
Trois amies (Emmanuel Mouret)
Desde Les choses qu'on dit, les choses qu'on fait (2020), passando por Chronique d'une liaison passagère (2022), e chegando agora neste Trois amies (2024), o cinema de Mouret tem se caracterizado por um registro híbrido que oscila entre tons cômicos e dramáticos. Na base de tudo, está a convicção de que a comédia pode se alimentar dos mesmos materiais que a tragédia: pessoas traindo seus princípios, agindo contra seus melhores interesses, através de negociações confusas entre seus desejos e a própria administração do cotidiano.
As intrigas são típicas de uma comédia romântica — com seus enredos de encontros e desencontros, enganos e desenganos —, mas ele não se limita à crônica da formação de pares e busca acentuar algo que percebe como estando latente no mesmo plano narrativo: um senso de infortúnio que se avulta à medida em que a estabilidade de uma relação é ameaçada ou que a expectativa sobre um relacionamento é frustrada. No que se refere a composição das tramas, a situação mouretiana por excelência é a que vai abranger o indivíduo caindo em contradição — por exemplo, vivenciando o desacordo entre suas ações, suas palavras e seus sentimentos, como ao expressar uma convicção e mais à frente perceber que experimenta seu contrário.
O conflito daí resultante então pode ser descrito da seguinte maneira: o indivíduo há de se deixar enganar por si próprio tanto quanto há de ser enganado pelos outros. Só que a ideia de que os sujeitos são feitos de bobos por si mesmos não se restringe a um aspecto humorístico, pois também compreende um sentido de desgraça: o que pode ser mais inclemente do que um autoengano? — Mouret parece se perguntar a cada vez que os personagens cedem à neurose que lhes é colocada pelas tentativas de interpretação do afeto ou de gerenciamento da libido. Seus filmes contam fábulas de desordem e reordenação: a desordem no convívio social serve de motivo para a comédia; porém, a saga de reordenação também carrega consigo uma certa melancolia — a percepção de que um sistema só se recompõe deixando coisas para trás.
Lembrei-me de uma passagem do livro de James Harvey sobre comédia romântica: sua observação de que uma das principais questões de Lubitsch é adotar o cerimonial da opereta ao mesmo tempo que encara as maquinações do gênero pelo que elas são — a rigor, histórias que giram em torno de sexo, narrativas sobre como uma pessoa acaba transando com a outra. O que me veio à cabeça pois é o oposto no caso de Trois amies: toda essa libertinagem sexual, toda essa troca de parceiros, toda essa infidelidade à francesa, no fundo vão desembocar é em conflitos sobre domesticidade, em que a grande questão é a estabilidade possível a um sistema de unidades domésticas — e as implicações de sua perturbação. A perversão de Mouret talvez não seja outra: destacar em que medida as unidades domésticas, um dos eixos de organização da vida social, vem a ser condicionadas por algo tão incerto quanto as flutuações da libido.
You've Got a Friend / Yugata no otomodachi (Ryûichi Hiroki)
A história de todo e cada fetiche nada mais é do que a história de mais uma estratégia dos indivíduos para aplacar sua solidão. Tendo isso em vista, deve-se realçar a maestria do Hiroki para incorporar a figura humana na paisagem e no décor, ou seja, em sua circunstância social — o trabalho de câmera e de enquadramento aqui é de se embasbacar (como já me fizera cair o queixo em Ride or Die, o último filme dele que assisti, pois quem dera eu tivesse tempo ou interesse para acompanhar as coisas que ele dirige aleatoriamente para a indústria japonesa).
Já o pano de fundo da eleição (há uma linha narrativa sobre BDSM e outra mais secundária sobre uma eleição local), que a princípio até pode parecer deslocado, não faz menos do que expor: a única questão política se refere ao saciar dos desejos. Pois vejamos: por um lado, ninguém é mais conformista do que a pessoa que tem suas tentações saciadas periodicamente. Só que por outro, não estaria o indivíduo sempre disposto a arriscar seu equilíbrio social para dobrar a aposta ou repetir a dose? E se não existe libido imune aos ciclos da adicção, também não deve haver humanidade alheia a dependência — desde o libidinal ao tão logo emocional.
Langue étrangère (Claire Burger)
Muito abertamente um filme sobre o que ainda poderia haver de factível na promessa da União Europeia, voltando-se ao seu mais exitoso projeto de paz continental: os programas de intercâmbio estudantil da comunidade, que têm por objetivo cimentar essa abstração que é a ideia de “identidade europeia”. Mas o que se busca colocar em foco aqui não é exatamente a geração dos adolescentes europeus de hoje em dia — são empregues marcadores geracionais em boa medida genéricos, como talvez seja inevitável quando adultos se dedicam à crônica de juventudes que não a deles (e dificilmente encontramos jovens fazendo filmes de relevo sobre jovens ou para jovens, no que é uma das grandes incongruências da cultura cinematográfica) — e sim a própria passagem de bastão tanto ideológica quanto comportamental.
Entre instituições vultosas e pais aborrecidos, Burger compõe um retrato bem terno da condição existencial adolescente, marcada pela negociação entre os processos de invenção pessoal (a esfera do livre arbítrio) e as heranças não-requisitadas que hão de pesar sobre eles (a esfera do determinismo familiar ou social) — para nos tornar aquilo que aspiramos ser, em que medida seria possível superar as neuroses do contexto em que fomos criados? Além do que, um filme que assume a mentira como ferramenta de autoinvenção, tematizando a ânsia de moldar a si com o intuito de impressionar um outro: o fabrico de uma personalidade não sendo mais do que a conciliação entre os estímulos de nossa interioridade e a mentira que contamos para gostarem de nós.
Hors du temps (Olivier Assayas)
É melhor do que se poderia esperar de um filme sobre o sofrimento que terá sido passar a pandemia em uma casa de campo tendo quase que um vilarejo inteiro como jardim particular (o que me leva a achar intragável um Diários de Otsoga da vida, diferentemente desse bem elogiado). Como eu ainda defendo o segundo Irma Vep, a boa notícia é que o Assayas parece ter superado o ponto mais baixo de sua carreira (Doubles vies & Wasp Network). O recurso a autoficção remete ao trabalho de sua ex-parceira Mia Hansen-Løve — ironicamente, tornada personagem aqui, da mesma forma que ele fora inspiração em Bergman Island.
Mas há uma vinculação com as preocupações habituais de Assayas: a questão da transmissão — de ideias, conceitos, sentimentos, objetos — e do legado — material, imaginativo — das coisas. Só que, considerando a centralidade da comunicação familiar, da diferença geracional, da domesticidade burguesa e da próprias questões de herança domiciliar — a casa de campo como espaço nostálgico e antiquado, apartado da temporalidade parisiense —, pode-se dizer ele já tinha feito esse filme em L'heure d'été, talvez seu melhor trabalho.
Anyway, acho que só fiz questão de deixar esse filme registrado aqui por teimosia devido ao quão fora de moda o Assayas ficou. Tenho me sentido cada vez mais alienado das dinâmicas da cinefilia online: tudo é sinalização de bom gosto, tudo é administração de capital cultural, tudo é esforço de pertencimento a um nicho. E os filmes que não contribuem para nada disso — seja para bater ou exaltar — vão sendo enterrados pela lógica das plataformas, que é a do engajamento pelo juízo de valor. No que os consensos são autocongratulatórios e os dissensos idem.
O que eu acho mais interessante em Hors du temps é o esforço do Assayas para dialogar com o fato de que nossas sensibilidades são, por natureza, condicionadas temporalmente. Existe um esforço para ter a passagem do tempo em consideração, para refletir sobre como as coisas são afetadas por ela. Consigo me relacionar com isso porque, modestamente, diria que essa coluna é um esforço de experimentação crítica da minha parte para perceber melhor a passagem do tempo, posicionando minha sensibilidade em relação às sensibilidades que vou encontrando cristalizadas cinematograficamente nesse interim. No fim do dia, buscando qualquer indício fugidio sobre a condição humana e sua representação.






