#2408: le deuxième acte; janet planet; home invasion; irgendwann werden...
Le Deuxième acte (Quentin Dupieux)
o mise en abyme da piada tensionada
entre a espirituosidade e a autoconsciência
no horizonte codificável, decifrável, reproduzível
que nos confina toda e qualquer expressão estilística
em puramente questões de mise en place comunicacional
locuções artificiosas projetando-se sob a chance de um avesso
a mecanização de cada cenário remissível pela elevação do chiste
a piada reivindicando sua glória nos trilhos do próprio esgotamento
Janet Planet (Annie Baker)
À procura do mundano com gana de transcendê-lo. Quer dizer, dando forma ao que não o teria como experiência e tampouco memória. Ou seja, temporalizando e espacializando um recorte de mundo equilibrável em sua propriedade representacional; e daí assentando a ficção de uma vivência dimensionável segundo o trabalho de modulação emocional que se transmite na cadência do gestual performático. Em suma, a mecânica da encenação e da dramaturgia. Pôs-me a pensar em algo que tem me encucado ultimamente: a eventual incognoscibilidade mútua entre pessoas próximas, porventura tão próximas quanto duas pessoas poderiam ser. No caso, voltando-se ao convívio de uma filha com sua mãe e vice-versa — não isolando-as cenicamente, mas entremeando a relação delas com elementos exteriores —, a partir de um olhar sobre a esfera da comunicabilidade que, retratando-a na forma de contatos intervalados, a evidencia como aspecto da vida social tão recôndito quanto sua supressão.
[Annie Baker é uma dramaturga de qualidade, diga-se, li The Flick recentemente e me entusiasmei bastante com a peça, ambientada em um pequeno cinema de Massachussets durante o período de transição da projeção analógica para a digital e muito evocativa quanto a essa temporada de mudança — fica a recomendação]
Home Invasion (Graeme Arnfield)
It’s all true:
1) O motor da história é a paranoia libidinal;
2) Pode-se especular que toda tecnologia é desenvolvida — em alguma medida — como ferramenta de controle, visando controlar algo ou alguéns;
3) Como se pode constatar no estudo das ferramentas de vigilância ao longo da história, a aplicação de uma tecnologia de controle para catalogar o outro também passará a condicionar o pretenso controlador — i.e., ninguém se torna usuário impunemente;
4) A adoção de novas tecnologias tem um impacto disruptivo nos processos cognitivos dos usuários, bem como em seus horizontes imaginativos;
5) Quanto mais se sabe sobre o que é exterior a si, mais se procuram formas de estabelecer novas formas de mediação entre os lados de dentro e de fora da paranoia subjetivadora;
6) O acesso a informações instantâneas sobre dimensões extrínsecas ao próprio espaço imediato é a perdição do ser entregue a uma dicotomia que não está apto a conciliar na psique — seu aqui daí sempre condicionado pelo acolá, eis a fragilidade de sua condição;
7) Uma das diferenças mais fundamentais entre a inteligência humana e a inteligência artificial é que os humanos produzem dados enquanto as máquinas os extraem;
8) Por fim: os mensageiros do apocalipse se dividem entre, de um lado, os empreendedores que lucrarão com o mesmo e, do outro, os inventores incautos que o terão deflagrado.
Claro que o meu filme de terror favorito do ano é um poema ensaístico sobre a segurança doméstica na era do extrativismo digital: (ir)razoavelmente digressivo, de Griffith ao ludismo, sem buscar articular seu fluxo de pensamento de modo elegante, sendo é caoticamente brutal na colagem teórico-anedótica. E das janelas de exibição mais peculiares que verás, tem isso.
Irgendwann werden wir uns alles erzählen (Emily Atef)
Esse conto de “adultério precoce” ambientada no verão da reunificação alemã é o tipo de coisa que costuma preencher as vagas nacionais na competição de Berlim e que, engendrando um didatismo histórico-emocional, compõe o que se pode chamar de cinema oficial do país. O tipo de coisa pela qual nutro um interesse antropológico dificilmente compartilhado por boa parte das tendências da cinefilia. Mas e aí, o que a cosmovisão mais oficialesca dos alemães expõe da estetização do mundo? De certa maneira — seja na ficção histórica, seja no drama erótico —, que o processo de estetização das coisas consiste em tocar certas notas e orquestrá-las em uma harmonia direcionada a adesão ou a variação das convenções de cada imaginário.
Será que será? Ué, nesse sentido é um belo filme, preciso dizer. Com o tempo, não há nada que um cinéfilo aprecie mais do que um bom artesanato fora de moda. Sem falar na tal da “eficiência” que tantos dizem estimar no que toca a substancialização dos processos estéticos: as famigeradas “economia” e “precisão” também não poderiam ser descritas como medidas de fluidez sobre o visionamento, e logo de imersibilidade em um universo artificioso? Aqui se oferece um espaço pastoral feito microcosmos essencialmente trágico, um cenário armado de forma a ansiar por si mesmo enquanto representação de um mundo que há de ser deixado para trás (vide a subtrama do projeto fotográfico) — sua componente histórico-emocional servida no ponto palatalmente expectável tanto de um didatismo quanto de um lirismo.
Pôs-me a pensar nessa coisa das ficções formativas — Bildungsroman, coming-of-age, como se queira classificar — poderem ser consideradas o molde do drama histórico por excelência. Vejamos, o senso de historicidade presume uma noção de movimento, e que movimento mais paradigmático à recognoscibilidade de uma vivência senão um senso de amadurecimento? E vale ainda realçar a dimensão erótica que aqui encontramos justamente entremeada na ficção histórica e no romance de formação: isso de estar entregue aos acontecimentos, descobrindo-se ora ativo, ora passivo em meio a eles — uma erótica da agência histórica em seu desvelar.








